A aplicação do politicamente correto está passando dos limites. Tentando suavizar certas palavras e expressões, as pessoas chegam a resultados piores. Isso me faz lembrar de uma coisa que aconteu comigo semana passada. Para melhorar uma fotografia, eu a abri para edição no computador. Usei o recurso Suavizar… e fui aumentando a intensidade… até que, de tanto aumentar a suavização, percebi que eu havia deixado a foto pior.
Nos Estados Unidos, negro é chamado, pelas pessoas educadas (?), de afro-americano. Qual o problema com “negro”? Não se refere, afinal, à tão admirável raça negra?
No Brasil, cego passou a ser deficiente visual. DEFICIENTE! Que palavra pesada, negativa! Deve mexer com o emocional de todos os cegos (“Sou um deficiente visual”). Parece que isso até agrava o problema da pessoa. O que havia de errado com “cego”? Não vejo nada ofensivo. Pelo contrário.
Temos também o deficiente auditivo. Que tristeza! Mais um DEFICIENTE! Onde está o surdo? Qual o problema com o termo antigo? Dias atrás, em um shopping, vi um telefone público com uma placa: “Telefone especial para deficientes [destaque meu] auditivos”. Se eu, que não sou surdo, me incomodei, imagino uma pessoa com essa deficiência. Ah, olha aí, deficiência. Viram como o termo pesa? Prefiro um “telefone especial para surdos”.
As substituições para “surdo” e “cego” não suavizam nada, não indicam educação ou polidez e ainda por cima são mais longas (por exemplo, é mais fácil e mais suave pronunciar e escrever “surdo” que “deficiente visual”).
O Prêmio Duvidosamente Correto vai para cadeirante. CADEIRANTE! Eu me recuso a falar assim de usuários de cadeira de rodas. Esta substituição, sim, tem o princípio da economia — é muito mais fácil dizer apenas isso, “cadeirante” —, mas é feia (horrível), agressiva, com um toque de pejorativo. Não sei por que isso me faz lembrar do uso de “japa” e “japoronga”, termos pejorativos e às vezes satíricos para “japonês” — um dos povos mais admiráveis da Terra.
Com a mania excessiva do politicamente correto, algumas pessoas procuram dente em bico de ave. Um exemplo: fui criador e editor do site SOS Língua Portuguesa, publicado em parceria com Blocos e depois com o ZAZ (hoje, Terra). Cheguei a picos de seis mil visitas por dia. O site tinha uma seção chamada Página Negra, na qual eu comentava transgressões à norma culta vistas na mídia. Para meu espanto, recebi vários e-mails de internautas (brancos e negros) reclamando do meu preconceito (?!?!?!) ao dar esse nome à seção. Segundo eles, a página associava “negro” a coisas ruins, a transgressões, a erros. Eu ficava chocado. Primeiro, porque, como ser humano, tenho muitos defeitos, é claro, mas um que eu NÃO tenho, de jeito nenhum, é o do preconceito de qualquer tipo; segundo, porque era um espanto as pessoas terem a “criatividade” de associar o nome da seção a uma difamação da admirável raça negra. Meses depois, para evitar problemas maiores com pessoas mais radicais, mudei o nome da seção — mas justificando que eu achava aquilo uma bobagem e ressaltando meu respeito e minha admiração pela raça negra.
Evidentemente, sou favorável ao politicamente correto. Mas até certo ponto — antes que ele caia na pura CHATICE. (Tem algo politicamente correto para CHATICE?) Não é com substituições como essas que as pessoas mostram que são educadas e que respeitam as outras.
Por exemplo, uma pessoa dessas pode exibir a todo mundo que diz certinho, “cadeirante”, mas fica olhando para um cadeirante na rua ou no shopping, como se ele fosse um alienígena ali (e permite que os filhos também se comportem assim, perpetuando o preconceito entre gerações), e não se incomoda de ver que a grande maioria das vias públicas e dos estabelecimentos da cidade não tem suporte nenhum para cadeirantes, como rampas de acesso. Eu me recuso a dizer “cadeirante”, mas sinto um enorme incômodo quando vejo um estabelecimento sem esse suporte, como se eu mesmo precisasse disso, e já cheguei a registrar reclamações (aconteceu recentemente em um cartório). Acho que isso é ser politicamente correto… sem hipocrisia…
O caso é parecido com o de um sobrinho que chama o tio de “senhor”, mostrando muito respeito, mas, por trás, xinga o tio, nem gosta dele. Prefiro um sobrinho que me chame de “você”. Modos de tratamento raramente indicam a realidade.
Algumas vezes, quero o direito de ser politicamente INcorreto.











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12 usuários com resposta neste post
Oi Glauco!Você acredita!Que o termo cadeirante vim ouvi-lo a pouco tempo,isso, quando ingressei na escola pública, parecia que as pessoas estavam se referiando a um alienígena.Pensei na hora do que falam!daí uns instantes uma colegas antes que eu perguntasse, disse:vOcê não tem aluno cadeirante em sua sala!
Veja só, queremos ser corretos, agindo constantemente incorretamente.O Brasil precisa de Educação integral.E as substituições de nomencraturas, não sinaliza a política que se diz correta.
Adorei teu texto!
Um abraço
Albani
Também detesto esta manipulação de palavras e que vai muito além do politicamente correto. No meio empresarial (e acadêmico), por exemplo, é ridículo ver as pessoas discutindo se é “empregado”, “funcionário”, “colaborador”, e no final das contas não muda nada. O cara tem um contrato de trabalho, ganho um salário e alguns benefícios, e faz o que lhe mandam fazer…
p.s. tudo bem aqui na Grécia, dentro do possível.
Primeiro, gostaria de agradecer pela visita ao meu blog. Resolvi passar por aqui e espero aquele post sobre o Pessoa de que você falou. Espero que você continue visitando o meu blog, pretendo colocar algumas coisas interessantes por lá (sobre mais um autor português, Gonçalo M. Tavares, em breve).
Quanto ao post, achei muito interessante. É importante estar sempre atento às palavras, pois elas nos revelam muitas coisas. E tenho de concordar que a questão do politicamente incorreto muitas vezes se torna supervalorizada pela mídia e pelas pessoas.
[[ RESPOSTAS ]]
Albani, não falo “cadeirante” nem por decreto, nem que isso vire artigo no Código Penal, sujeitando a prisão.
Rodrigo, ao escrever o texto, o tempo todo eu sabia que faltava algo… Desisti depois de muito pensar. Aí veio seu comentário acertando na mosca: a distinção empregado/funcionário/colaborador. Acho essa preocupação uma bobagem.
Leo, gostei mesmo de sua iniciativa e estarei sempre lá. Logo publicarei aqui um texto sobre o mercado editorial e as poesias, por que os editores não investem nisso (com razão). E mostrarei minhas fotos no Mosteiro dos Jerónimos, inclusive ao lado dos túmulos de Camões e Fernando Pessoa.
GLAUCO
Puxa vida eu estou gostando desse seu blog, parabéns. Eu sempre vejo algumas coisa muito interessantes.
Leticia Goldberg. Curitiba
Glauco!Eu não uso o termo cadeirante, acho desumano.As pessoas falam tão em respeito, humanidade,mas criam termos que menosprezam.
Um abraço, amigo!
Albani
[CORREÇÃO]
As pessoas falam, tanto em respeito…
Desculpa.
Concordo com você, Glauco.
Post apropriado e interessante.
Enfeitam tanto, tornando ‘depreciativo’. Demagogia… e estão sobrando demagogos!
GENIAL!!!
olá querido, sou “deficiente auditiva”, mas quando as pessoas me xingam dizem: OH SURDA! RSRSRS porém para quem tem a “defidiencia” alguns termos ficaram menos pejorativos acho…Tipo: “você ta cego?” utilizado no transito, ou outros termos que talvez “saturaram” na linguagem falada, e foram se transformando em termos preconceituos, acho que foi por isso que legalmente mudou… Digo linguagem falada, Já que a minha é em libras… Mas acho que não sou “deficiente” como sancionou a lei, pelo contrário, até então nas coisinhas que faço me acho bem EFICIENTE!!
abraços da Clau
opa !” alguns termos ficaram MUITO pejorativos acho” corrigindo
Desculpinha..
Oi, Cláudia!
Achei MUITO importante a sua participação aqui. Tenho o meu ponto de vista, os meus conceitos, mas não são ideias de quem vive um problema desses. Você nos transmitiu uma ideia mais precisa.
Interessante o que você apontou sobre “xingamentos” como os de trânsito. Palavras acabaram tomando uma carga mais pesada, um tom fortemente pejorativo. Realmente. No entanto, ainda tenho resistência em usar “deficiente”. Se eu me referisse a você como DEFICIENTE auditiva, teria a sensação de acusá-la de… sei lá, de “inútil” ou algo assim. O peso daquela palavra é terrível. Por isso, por mais estranho que pareça, prefiro pensar em “surda”. O deficiente (ah, olha aí!) tem uma determinada deficiência; ao usar essa palavra, parece que enxergo a pessoa como deficiente por completo, como se não fosse capaz de fazer outras coisas, de ter uma vida normal. Deve ser apenas exagero meu… De qualquer forma, é um respeito que tenho.
Espero ter a honra de outras visitas suas no TOTH.
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